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Cana-de-açúcar: solução para os tempos de seca

A chuva não cai e a vaca não acha uma folha verde na fazenda. Drama social comum à realidade da atividade, o período de estiagem gera graves problemas para a indústria: a queda no fornecimento de leite e a elevação dos custos de frete. "A sazonalidade nos prejudica, pois ela gera uma quebra de produção", contextualiza Antônio Claudio Saldanha, coordenador de captação da CCPR.

Em Guanhães e nos municípios vizinhos, no Vale do Rio Doce, a pecuária de leite é majoritariamente extensiva. O sistema reflete o perfil mais comum do produtor local, em sua maioria, com volume diário de até 400 litros. Para minimizar a quebra da sazonalidade, a equipe de captação da CCPR desenvolveu uma estratégia. O coordenador de captação e o gerente da regional Belo Horizonte, Elimar Moreira Sousa, inspirados em experiências com que já tiveram contato, pensaram em uma alternativa de custo baixo, de alta produção e fácil manejo: um projeto de compartilhamento de mudas de cana-de-açúcar com o objetivo de, num segundo momento, complementar a dieta das vacas na estiagem e sustentar o nível de produção.

Assim, nasceu o projeto Procana, parceria entre a CCPR e a Cooperativa Regional dos Produtores Rurais do Centro Nordeste Mineiro (Coopercentro), em cuja fazenda foi plantado o primeiro lote de cana. "É um projeto simples, rápido e que atende a região. Quando estiver em plena operação, o produtor não vai parar de produzir no período de seca", prevê Saldanha, que responde pela região de Guanhães. A ação se tornou viável a partir da utilização dos recursos do Programa Mais Leite Saudável, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

A opção pela cana tem duas justificativas. A primeira é relacionada às características da planta, que se destaca pela resistência hídrica, sendo capaz de preservar seus níveis nutricionais, em situações de escassez de chuva. Outro ponto é seu alto teor de sacarose e de nutrientes digestíveis totais (NDT), além do moderado teor de fibra em detergente neutro (FDN), quando comparado ao de outros volumosos.

A segunda justificativa é seu custo acessível. Diferentemente do verão, quando a pastagem extensiva ou o piquete rotacionado são as opções mais utilizadas, na entressafra, o uso da cana já é bastante difundido na região. Em propriedades maiores, também é fornecida silagem juntamente à forragem disponível, mas é mais raro. Leonardo Sardinha, presidente da Coopercentro, avalia que, principalmente para o pequeno produtor, a silagem impõe uma série de restrições, como o emprego de máquina e de tecnologias com as quais, muitas vezes, ele não está habituado. "A cana é uma forrageira acessível e que, como já está comprovado cientificamente, consegue oferecer para os animais uma condição boa de nutrição", justifica.

José Lúcio Mourão já informou à cooperativa que tem interesse em ser atendido pelo Procana. A realidade do cooperado é uma exceção em Guanhães, pois consegue manter, ao longo de todo o ano, seu volume diário de, aproximadamente, 500 litros. A fazenda Paineira conta com 53 animais, 33 deles em lactação. José Lúcio mantém um canavial na propriedade, mas que não fornece quantidade suficiente de volumoso ao longo do inverno, e a silagem, significativamente mais cara, precisa entrar na dieta. "Se a fazenda for integrada ao programa, acredito que o gasto anual com silagem de milho cairá pela metade", avalia.

Neste momento inicial, a cooperativa e a CCPR estão se dedicando a informar os 192 cooperados sobre a existência do projeto e seus princípios. Cabe ao produtor manifestar seu desejo de participar. Dez serão contemplados para receber as primeiras mudas, e caberá aos gestores do Procana a definição dos nomes a partir de critérios técnicos. "Ele deve informar como pretende usar e em qual área deseja plantar. A partir daí, faremos o processo de filtragem", explica o coordenador de captação da CCPR.

VALORES E DIRETRIZES

O Procana adquiriu 10 toneladas de cana-de-açúcar, de duas variedades, indicadas por especialistas da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Elas são as mais adequadas em razão das qualidades nutricionais e das características do solo. O lote origina-se de Oratórios, a 300 km de Guanhães. O orçamento total do Procana, ainda não mensurado, está sendo rateado entre as duas parceiras.

A cana plantada em novembro é intermediária, isto é, estará madura em um ano. Ela ocupa um hectare, e a expectativa é colher, no mínimo, cem toneladas no fim de 2018. Deste total, cada cooperado selecionado receberá 10 toneladas, que deverão ser replantadas em suas propriedades. Esses produtores da turma inicial vão assinar um termo de compromisso firmando que, quando seu canavial estiver maduro, ao fim de 2019, repassarão 10 toneladas a algum colega ainda não atendido, e assim sucessivamente. O restante, ele poderá fornecer a seu rebanho na estiagem. Os integrantes dessa segunda turma também serão definidos tecnicamente pelo Procana.

Assim, o repasse será contínuo por pelo menos cinco anos. A plantação na fazenda da Coopercentro, por exemplo, será sempre direcionada para replantio. Espera-se que, em cinco anos, mais de cem cooperados tenham sido beneficiados. Nesse período, os repasses e o processo de multiplicação serão monitorados e, paralelamente, a produção de leite. "Quem normalmente tira cem litros na safra, na entressafra tira cinquenta. Se a média for mantida, nossa expectativa será atendida", afirma o coordenador local de captação.

Não só de safra a safra, o projeto também se multiplica de cidade a cidade. Mesmo antes de colher seus resultados, a CCPR já estende a mesma metodologia do projeto Procana para cooperativas de Ferros, Santa Maria do Itabira e Alvinópolis, onde estão em estágios diferentes de execução.

TRABALHO PARCEIRO

A equipe técnica da CCPR está acompanhando o Procana em todas as fases. A aquisição das mudas, a análise e a correção de solo, a coordenação do plantio, o tratamento com intensivos e defensivos, todo o trabalho está sendo supervisionado pelos profissionais da Cooperativa Central. Igualmente fundamental para o sucesso da iniciativa é a multiplicação do conhecimento com o objetivo de fomentar a cultura da cana-de--açúcar nas propriedades de leite. Apesar de o uso da planta como item da dieta bovina ser bastante difundido na região de Guanhães, os tipos cultivados têm qualidade inferior e verificou-se a oportunidade de aprimoramento técnico. 

Esse tipo de preocupação de médio e longo prazo e focado na ponta é avaliado pela Coopercentro como reflexo da filosofia da nova direção da CCPR. "Vejo que a CCPR está em um momento novo. Se não fosse firmada a parceria para a criação do Procana, não haveria recursos para o plantio do hectare", reconhece Leonardo Sardinha. Ainda segundo o presidente, "o cooperado vai ter um estímulo maior, e, sem dúvida, quem trabalha motivado apresenta resultados muito melhores".

NA PRÁTICA

O volumoso complementar disponibilizado pelo projeto só entrará na dieta dos rebanhos na época de estiagem de 2020. Assim como seu cultivo, a forma de fornecê-lo às vacas demanda cuidados (veja o quadro abaixo). O corte deve ser feito a poucos centímetros do solo, para favorecer a boa durabilidade do canavial, que pode chegar a oito anos. A época de colheita é a de seca e até, no máximo, dois dias antes do fornecimento in natura, como o projeto recomenda. 

A cana tem que ser triturada em pedaços pequenos, de até 2 cm ou menor, de preferência, para favorecer a digestibilidade pelos animais. Esse procedimento é de extrema importância, de acordo com os técnicos da Embrapa Gado de Leite, porque a fibra da cana é de baixa digestibilidade e, portanto, tem alto efeito de enchimento do rúmen. A trituração adequada ajuda a reduzir o tempo de permanência dessa fibra no órgão, o que aumenta o consumo da dieta rica em carboidrato.

Imediatamente após esse processamento de picagem, o material fibroso deve ser misturado à ureia e ao enxofre para, então, ser fornecido. A adição de 1% de ureia eleva o teor de proteína bruta para próximo de 10%. Ela também é útil para a conversão de nitrogênios não-proteicos (NNP) em proteína microbiana no rúmen. Já o complemento de enxofre se justifica pelo ganho de eficiência no uso da ureia.

Informativo do preço do leite pago ao produtor ccpr

De acordo com a lei 12.669 de 19 de junho de 2012, informamos o preço bruto mínimo pago pelo leite a ser fornecido em maio de 2018.